PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO DE JANEIRO

Departamento de Comunicação Social

Metodologia de Pesquisa em Comunicação – COM1170

 

 

 

O Surrealismo de René Magritte

através de ‘Les Amants’

 

 

 

 

Mercia Maria Ribeiro Anselmo.

Professora: Maria Lúcia Matos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rio de Janeiro, 21 de junho de 2002.

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

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O pintor surrealista René Magritte é o assunto desta pesquisa biográfica. Para conhecer a essência do trabalho dele foi utilizada a obra ‘Les Amants’, de 1928. Esta pesquisa está dividida em três partes: a primeira mostra quem foi o pintor; a segunda, como foi o Movimento Surrealista e a terceira uma análise da obra ‘Les Amants’. Nessa ordem, o leitor entenderá melhor a análise feita. O objetivo é apontar caminhos de interpretação aos interessados na vida de René Magritte, já que o conteúdo das obras dele é tão enigmático. Foram pesquisados livros de arte e sobre arte, além de consultas na Internet. Há uma reprodução dessa obra analisada na página de abertura e os desdobramentos dela na página final. Assim, os leitores dessa pesquisa podem tirar as próprias conclusões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1 'Les Amants', primeira versão.

 

 

 

"A mente ama o desconhecido. Ela ama imagens cujo

significado é desconhecido. A mente por si própria é desconhecida."

René Magritte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RENÉ MAGRITTE (1898-1967)

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René François-Ghislain Magritte nasceu em 21 de novembro de 1898, em Lessines, uma pequena cidade da região do Hainaut belga. Seu pai Léopold era alfaiate e a mãe, Adeline Bertinchamps, modista; seus dois irmãos, ambos mais novos se chamavam Raymond e Paul.

Quando Magritte nasceu, as artes plásticas européias já haviam passado por algumas revoluções. A pintura e a escultura deixaram de lado a proximidade da natureza e da realidade ambiente, dando lugar a uma arte de concepções mais intimistas e mais inteligentes, fato que marcou o Impressionismo. Nesse fim de século, ocorreram também consideráveis mudanças nas idéias, influências da já ocorrida Revolução Industrial, instalando-se assim o Modernismo Estético.

Outros acontecimentos, além dos já citados, influenciaram, mesmo que ocasionalmente a obra de Magritte. Entre 1880 e 1910, surgiu o Simbolismo, sucessor do Romantismo. Aparecem também dois movimentos na Alemanha que, embora opostos tinham em comum as aproximações sensitivas dos dois universos que mobilizam o homem: a relação entre o mundo exterior e interior, entre o sonho e a ação. Neste mesmo ano de 1910, incentivado pelo pai, Magritte teve suas primeiras lições no curso de pintura para crianças em Châtelet.

Em 1912, Adeline Magritte, mãe dele, foi encontrada morta no Rio Sambra, por razões até hoje desconhecidas. Porém esse acontecimento marcou profundamente a vida do artista que pintou muitas obras relacionadas com a morte da mãe. Numa delas, "O Assassino Ameaçado", Magritte pinta a mãe nua com um pano branco sobre o pescoço e sangue no rosto, da forma como a encontrou no dia de sua morte. Outros elementos aparecem representando um cenário de como vira a morte de sua mãe. O pano branco era a camisola que cobria a face de Adeline e que aparece em muitas outras obras, como é o caso de "Os Amantes", que será analisada mais adiante. Sendo assim, todos os quadros onde se vêem lençóis que, ou moldam as formas humanas, ou escondem situações onde podemos ver estas formas aludidas, fazem referência à morte da mãe.

Muitos dos rostos pintados por Magritte aparecem cobertos, quando não pelo pano branco, por flores ou objetos. Esse acontecimento deu-lhe também um sentimento do mistério, que a partir daí foi a base da sua doutrina. A pintura de René Magritte tornou-se então uma tentativa de evocação do mistério. Para ele, a pintura deveria estar relacionada com a poesia e esta fazia um apelo ao mistério sublimando suas próprias experiências. O mistério também estava relacionado ao fato da ausência do apoio materno em sua infância. Ele tinha constantes crises de depressão e isso pode ter sido causadora da formação de uma aura de mistério em torno de si.

Outro aspecto de sua pintura é que apesar de Magritte pouco falar do erotismo, a mulher nua, tema central de muitos dos seus quadros, parece muitas vezes ser considerada como uma "coisa" igual às outras, inerente ou viva. O corpo feminino é tratado muitas vezes de maneira escultural, sendo apreendido como objeto do desejo, ou como evidência plástica.

Apesar da Psicanálise estar presente nas obras de Magritte, este manifestou pouco interesse por ela, sobretudo quando tentavam aplicá-la à explicação de seus quadros. Ele se dizia um pintor realista.

A diferença mais visível entre a obra de Magritte e os simbolistas aparece na noção de símbolos. Dizia ele: "É necessário ignorar a minha pintura para associá-la a um simbolismo simples ou erudito. Por outro lado, a minha pintura não implica qualquer supremacia do invisível sobre o visível; este é tão rico que forma a linguagem poética, evocada do mistério do invisível e do indivisível".

Em 1920 ele noivou com Georgette Berger, com quem se casou dois anos depois. Nesta mesma década Magritte ampliou o movimento surrealista, que propunha colocar o sentimento acima da existência, invertendo-o. Dessa forma recusou qualquer aplicação de uma teoria simbólica aos seus quadros, tendo sua pintura como uma tentativa de evocação do mistério.

Freqüentou lugares ligados à arte como a Académie des Beaux-Arts de Bruxelas em 1916, onde afirmou uma carreira artística e pôde conviver com artistas importantes da época. Lá, conheceu Victor Servranckx que foi seu condiscípulo. A Galeria Sélection e a Galeria L’Epoque foram outros lugares que Magritte freqüentou e conviveu com grandes nomes que influenciaram sua obra.

Além disso colaborou ao longo de sua vida em diversas revistas, desenhou para partituras de música popular e escreveu múltiplos artigos para a imprensa de esquerda, realizou uma série de pequenos filmes, por vezes com cenários compostos por ele e seus companheiros, compôs cartazes e anúncios publicitários. Essas produções lhe possibilitaram diversos meios de ganhar a vida à margem da arte sem no entanto violentar aquela liberdade que todo o criador exige.

René foi influenciado pelo Simbolismo, Futurismo, Orfismo e Cubismo analítico e colaborou numa revista de inspiração dadaísta. Em 1926 compôs sua primeira obra surrealista de sucesso: ‘O Jóquei Perdido’. Juntamente com outros surrealistas do grupo belga assinou dois panfletos. Assim aderiu à providencial sinceridade surrealista que era proposta aos jovens artistas de então desejosos de associar, no seu comportamento, o coração e o espírito, de escandalizar.

Magritte passou por etapas de estudo e investigação, além de acontecimentos familiares e diferentes companheiros. Também fez passagens pela abstração, pelo Cubismo, pelo Futurismo e até pelo Expressionismo, no período de 1910 à 1925, para então tornar-se surrealista, um ano após a publicação do Manifesto de Breton, definindo-se como "um pintor realista para quem o real é o meio privilegiado de fazer oscilar o convencional para o enigma e, assim, revelar tanto quanto possível, o mistério que aí se encontra".

Em 1946 é publicado o manifesto Surréalisme en pleine soleil, sob o título A Experiência Continua, assinado por ele e outros surrealistas. Esse período também é marcado pelo "aumentalismo", e "extramentalismo" que propunham um surrealismo "optimista".

Em 1965 com saúde frágil se hospedou em Ischia e em Roma, onde se submeteu a um exame cirúrgico. Em 15 de agosto de 1967 morreu com 69 anos no seu domicílio após curta hospitalização.

Magritte usava escrupulosamente técnicas realistas para apresentar cenas alucinatórias que desafiavam o senso comum. Assim como Salvador Dalí, pintava imagens ilógicas, perturbadoras, com uma claridade impressionante. Ele começou como artista comercial, desenhando papéis de parede e anúncios de moda. Em sua obra surrealista, usou o domínio da técnica realista para desafiar a lógica. Colocava objetos do cotidiano em locais incongruentes e os transformava em choques elétricos. Estas perturbadoras justaposições de objetos banais em contextos inesperados compelem a uma nova visão da realidade que transcende a lógica.

Filósofo e pintor, Magritte foi um ilusionista que se recusou à explicação das coisas. Queria fornecer a explicação da explicação. "Tudo é traição, não devemos fixar-nos na aparência das coisas." Suas telas chocam, perturbam e fascinam sejam elas lúdicas ou cruéis. Não procurou revelar o real, e sim desvelar seu mistério. Segundo ele, o "pensamento tende a tornar-se aquilo que o mundo lhe oferece e a restituir aquilo que lhe é oferecido; as imagens são "retratos" das idéias e não de objetos ou de indivíduos; a coerência não está visível no ambiente, mas no pensamento."

 

 

 

O MOVIMENTO SURREALISTA

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O Surrealismo floresceu na Europa e nos Estados Unidos nos anos vinte e trinta. Ele nasceu de um desejo da ação positiva, de começar a reconstruir a partir das ruínas do Dadá. Este ao negar tudo, acabava negando a si mesmo, isso levou a um círculo vicioso que era necessário ser rompido. O Surrealismo, movimento literário promovido por seu padrinho, o poeta André Breton, e nascido da livre associação e da análise dos sonhos freudiana, era então "uma corrente organizada, mas também produto de uma mentalidade própria da época" (Apollinaire, 1917). Sendo considerado o mais importante entre os movimentos que sacudiram o panorama cultural no século passado, surgiu com o objetivo de mudar o olhar para o mundo, transformar a realidade, metamorfosear todos os sentidos, ir muito além das percepções cotidianas, recusando o senso comum e a razão científica ou didática. Ele vai além do realismo, buscando deliberadamente o bizarro e o irracional para expressar verdades ocultas, inalcançáveis por meio da lógica.

Dadá se transformou em Surrealismo, isso é, na teoria do irracional ou do inconsciente na arte. A fusão se deu por meio da revista francesa Littérature, encabeçada por um grupo de literatos: Breton, Soupault, Aragon, Éluard. O "Manifesto" do Surrealismo é de 1924, porém foram precisos dois anos para que o Surrealismo se firmasse realmente como um movimento. Esses dois anos, de 1922 a 1924, ficaram conhecidos como o "période des sommeils". O Surrealismo se tornou realmente internacional em 1936, permanecendo até então um movimento predominantemente francês, centrado em Paris. O Manifesto Surrealista anunciou o Surrealismo como um movimento literário, mencionando a pintura apenas numa nota de rodapé. Afirmava, entretanto, abranger todo o espectro da atividade humana com o objetivo de explorar e unificar a psique humana, englobando áreas até então negligenciadas da vida, como o sonho e o inconsciente. O inconsciente não era apenas uma dimensão psíquica explorada com maior facilidade pela arte, devido à sua familiaridade com a imagem, mas era a dimensão da existência estética, e, portanto a própria dimensão da arte.

Em relação à técnica, o Surrealismo se apropria da desinibição dadaísta, tanto no emprego de procedimentos fotográficos e cinematográficos, quanto na produção de objetos "de funcionamento simbólico", afastados de seus significados atuais. Também se utiliza das técnicas tradicionais principalmente os artistas interessados no conteúdo onírico das figurações, seja porque, sendo de uso corrente, prestam-se muito bem a escrita, seja porque a normalidade ou mesmo a banalidade da imagem isolada ressalta a incongruência ou absurdo do conjunto.

As artes plásticas são auxiliares do Surrealismo, cujos interesses principais são a poesia, a filosofia e a política. No âmbito das artes visuais o Surrealismo foi um dos mais vorazes de todos os movimentos modernos, atraindo para sua órbita a arte dos médiuns, crianças, lunáticos, pintores naïfs, juntamente com a arte primitiva que refletia a crença dos surrealistas em seu próprio "primitivo integral".

André Breton, Max Ernst, Joan Miró, Salvador Dalí, Pablo Picasso, René Magritte, Giorgio De Chirico, Yves Tanguy, André Masson, Benjamin Péret, Jean Arp, Georges Hugnet, Marcel Duchamp, Maria Martins, Wifredo Lam, Alberto Giacometti, Roberto Matta, Hans Bellmer, Man Ray, Alvarez Bravo, Meret Oppenheim, Remedios Varo, Luis Buñuel... são alguns dos artistas que estão inseridos no movimento surrealista. Suas obras e pensamentos, insurgiram contra os grilhões da lógica e da razão, incorporando ao processo de criação artística o conceito freudiano do inconsciente, através da técnica do automatismo. Esta técnica utilizada pelos poetas e pintores surrealistas, era uma maneira de criar sem o controle consciente para despertar o imaginário inconsciente.

"... o puro automatismo psíquico... que visa a expressar... o verdadeiro processo do pensamento... livre do exercício da razão e de qualquer propósito estético ou moral"

A teoria surrealista está sobrecarregada de conceitos tomados à Psicanálise, e sua retórica elaborada nem sempre deve ser levada a sério. A idéia de que um sonho pode ser diretamente transposto da mente inconsciente para a tela, ignorando a percepção consciente do artista, não funcionou na prática; certo grau de controle era simplesmente inevitável.

A evocação do real para Magritte seria objeto da emoção e não da reflexão. Por isso, recusou a aplicação de teorias simbólicas nos seus quadros. Ele dizia que a realidade ultrapassa a ficção e o consciente domina o inconsciente. Foi o único surrealista que agiu sem se basear nos apelos parafreudianos à forças nevróticas. Para ele, a banalidade dos objetos conjuga-se com a preocupação de procurar que eles simbolizem qualquer coisa de diferente do que na realidade são.

"Pintei quadros onde os objetos estavam representados com a aparência que têm na realidade, maneira bastante objetiva, a fim de que o efeito perturbador que, graças a certos meios, eles podiam provocar, se encontre no mundo real, onde estes objetos existem, devido a uma troca totalmente natural".

Sua obra é considerada surrealista por desenvolver uma relação da realidade física das coisas, tal como elas são vistas com a impressão inédita da realidade de uma maneira diferente da habitual. Tentou revelar como um oráculo o mistério do visível e do invisível. O espectador desconcerta e se encanta pela obra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS AMANTES, 1928 - LES AMANTS

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Certa vez René Magritte definiu sua pintura como a ‘investigação sistemática de um efeito poético perturbante’ com o uso de um elemento inesperado. É essa a impressão que se tem ao se deparar com "Os amantes". Nele, os referenciais básicos de sua obra: o mistério e a morte de sua mãe estão presentes. Essa obra está pintada com a aparência de realidade, de forma objetiva. Foi escolhido para esta análise por causa do seu poder enigmático. Seria uma pintura realista, se Magritte não tivesse acrescentado o dado surrealista: os rostos do casal estão cobertos por lenços brancos. Não é para expressar emoção, mas para explorar as possibilidade da pintura em questionar aquilo que se acha que se sabe da realidade. Segundo Magritte, essa "imagens são ‘retratos’ das idéias e não de objetos ou de indivíduos." Pode-se dizer que a coerência do casal com rostos cobertos não está visível no mundo exterior, mas no pensamento de quem fez e quem o contempla. Eles dão um efeito perturbador, provocando o espectador, aspecto muito presente no Surrealismo de Magritte.

Há uma confirmação da evocação do real que para Magritte seria objeto da emoção e não da reflexão. Para ele, a banalidade dos objetos conjuga-se com a preocupação de procurar que eles simbolizem qualquer coisa de diferente do que são na realidade. O pintor tenta transmitir fielmente o que lhe revela a sua observação da realidade, mas claro com a subjetividade do olhar dele. O surrealismo de René Magritte reabilita a noção de ‘imagem’ na arte moderna e na contemporânea. O espírito de Magritte sobressai e se inscreve nessa representação mental vinda da sensibilidade. A sua técnica acadêmica proporciona uma precisão ao conteúdo do quadro "Os amantes". Mas a técnica serve às idéias de Magritte e não ao contrário. Pode ser percebido como constatações ou balanços de suas emoções.

Em 1928, ano de "Os amantes", Magritte substitui o uso de palavras por imagens figurativas. Há uma transformação da pintura dele numa linguagem, sem ser literária. O casal está disposto como se posasse para um álbum de família. Ao fundo uma floresta longe deles, um céu azul e com nuvens, tudo se passando normalmente com uma atmosfera de ternura. Há uma luz como num pôr-do-sol que ilumina o casal vinda do lado esquerdo, salientando a carga poética. Mas os lenços brancos que cobrem os rostos deles convidam para um questionamento do que está oculto. A ausência dos rostos também pode ser vista como a perda da identidade do casal causada pela paixão. Como também foi expresso em O Beijo, de Munch. Essa eliminação da identidade, torna a cena universal, possibilitando ao espectador, a liberdade de imaginar qualquer coisa, inclusive a si mesmo, isso é trazendo a cena à sua própria vida. Drummond, em seu poema Destruição exprime essa questão do amor demonstrada por Magritte em Os Amantes:

DESTRUIÇÃO

Os amantes se amam cruelmente

e com se amarem tanto não se vêem.

Um se beija no outro, refletido.

Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados

pelo mimo de amar: e não percebem

quanto se pulverizam no enlaçar-se,

e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma

que os passeia de leve, assim a cobra

se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.

Deixaram de existir, mas o existido

continua a doer eternamente.

Carlos Drummond de Andrade.

Apesar de não gostar de interpretações psicológicas sobre a sua obra, é nítida a carga psíquica contida nessa obra. O uso do pano branco sobre os rostos na obra ‘Os Amantes’ pode ser interpretado pelo fato da mãe dele ter sido encontrada morta por afogamento no Rio Sambra. Ele presenciou a retirada do corpo da mãe, que estava nua e com a camisola branca cobrindo o rosto. Não se sabe os reais motivos de sua morte: se foi suicídio ou assassinato, já que ela foi encontrada com sangue nas têmporas e no nariz. Magritte não tinha dúvidas de que seu pai teve de alguma forma participação no que aconteceu.

O fato de estarem os rostos cobertos salientam ainda mais o tom de mistério contida ali. Demonstra que os mistérios aplicados a um real fisicamente demonstrado, convocam entre si mesmo um peso transdisciplinar de poesia, que sublimam as suas próprias experiências. A mulher do quadro também pode ser vista como a Georgette, sua esposa, que era muito parecida com Adeline. Ela foi muito valorizada por Magritte e serviu de modelo para alguns de seus quadros. Numa reunião entre os surrealistas, por exemplo, René rompeu relações com Breton por ele ter criticado um objeto que ela usava. O assunto Georgette era sagrado para Magritte.

O retrato do casal, foi representado como sendo Magritte e Georgette. Ambos estão num momento de amor, paixão e ternura, presenciando o amor pela morta, e reunindo assim, a perda desta com o amor pela esposa.

Quanto ao título de "Os amantes", deixemos que o próprio autor responda com o tom filosófico, tão característico dele: "Penso que o melhor título de um quadro é um título poético, um título compatível com a emoção mais ou menos evidente que experimentamos ao olhar um quadro". Magritte sempre age por analogia. Não se decide.

"Os amantes" expressa a nova concepção de arte inaugurada por Magritte: a busca do mistério junto ao envolvimento da poesia. Uma sutil provocação através do uso de uma dialética visual. Como é característico de Magritte, o aprofundamento da idéia poética de "Os amantes" é feito num filme rodado entre 1956 e 1957, baseado na segunda versão de "Os amantes" também de 1928, em que um casal se beija.

 

 

 

 

 

 

 

FONTES DE PESQUISA

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BIBLIOGRAFIA:

ARGAN, Giulio Carlo, A Arte Moderna, São Paulo; Companhia das Letras, 1996.

GOMES, Álvaro Cardoso, A estética surrealista, textos doutrinários comentados, São Paulo; Atlas, 1994 .

JANSON, H.W e Anthony F., Iniciação à História da Arte, São Paulo; Editora Martins Fontes Ltda, 1996.

MEURIS, Jacques, Magritte, Genebra; Editora Taschen, 1990.

NADEAU, Maurice, História do Surrealismo, Coleção Debates, São Paulo, 1985.

SARANE, Alexandrian, O Surrealismo, São Paulo; Verbo, Editora da USP, 1976.

STANGOS, Nikos, Conceitos da Arte Moderna, Rio de Janeiro; Zahar, 1991.

STRICKLAND, Carol, Arte Comentada: Da Pré-História ao Pós-Moderno, Rio de Janeiro; Ediouro, 1990.

 

SITES:

www.magritte.com

www.surrealismo.net

http://primeirasedicoes.expresso.pt

www.esfera.net/015/plast-magritte.htm